quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O sexo e as negas

Analisando a televisão brasileira, é notável que, quando a ideia é passar algo "cultural", ideais de riqueza, de oportunidades, de classe e elegancia, você tem uma maioria branca. O programa Mulheres ricas, passado a não muito tempo é um exemplo, já que nem uma das protagonistas é negra. Em concursos de modelo como o Menina fantástica, você tem uma minoria absurda entre as escolhidas, mais especificamente 1 entre 12. Quando é pra escolher modelo brasileira pro fashion weak, mesmo com a ideia das cotas, as negras são minoria. Em 2011, com a coleção Royal Black, a grife carioca Osklen utilizou a Africa como tema, mas, nos bastidores quando o assunto das cotas para modelos negras entra em pauta, há quem pergunte: "Se os negros não compram minha roupa, por que vou contratar modelos negras?" Esta pergunta nos dá o direito de perguntar também: se a modelo negra não interessa, por que o interesse em sua cultura?
Mas, quando a questão é sexualidade, temos todo um apelo pras negras.
Na misserie Suburbia, também da globo, a questão era a mesma que aparece agora: periferia, sensualidade, crimes, marginalidade... Ficava muito latente como eles colocavam o papel da negra e qual era o papel da branca. Agora, nesse seriado, o que eu vejo é de novo essa sensualização, a objetificação, como já é tão comum não só nas novelas e minisséries, mas tambem e talvez principalmente na propaganda, como a da cervejaria Devassa, onde a cerveja preta é comparada a uma negra e o slogan era: "É pelo corpo que se conhece a verdadeira negra".
Quando um seriado é focado num nucleo de gente branca, é "Mulheres ricas". Quando o nucleo são mulheres negras, é as o Sexo e as negas?
Este programa será só mais um para o histórico não só da Globo mas da midia geral em dividir papeis sociais onde o galã raramente é negro e a negra é comumente sexy ou a domestica, ou quando nenhuma das duas coisas, assume-se outros esteriótipos.
Fora que, em um pais como o Brasil, que "importa novelas", como foi o caso de Avenida Brasil, que rodou vários países, é realmente certo o tipo de ideia que esse seriado parece promover?
Internacionalmente, a imagem da mulher brasileira de modo geral, já é de mulher fácil e o "gringo" vê o país como turismo sexual. "O sexo e as nega" tão e somente ajudaram a alimentar ainda mais essa visão internacionalmente e a consolidar ainda mais o papel que já é assumido pelo afro-descendente na mídia nacional.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Reticências

Pra onde vão os nossos silêncios?
O que é feito do que não dizemos?
Em que lugar ficam escondidas as vontades as quais não nos rendemos?
Ficam escritas... Em nós mesmos, como marcas. No vento, quando lançamos nossos pensamentos no ar, esperando que se dissipem. Ou com palavras. Escritas....Tudo fica intimamente oculto, como caixas que guardamos uma dentro da outra, até que sejam esquecidas ou simplesmente percam o valor.
Mas não perdem.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Bifurcação

Um dia, a gente muda, enlouquece e resolve ir embora.
Ir embora de situações, de lugares. Ir embora da presença das pessoas, de seus comportamentos que em nada acrescenteam a nós ou que já não condizem com os novos planos que estamos fazendo. Algumas pessoas simplesmente começam a destoar daquilo que esperamos da vida.
Um dia, a gente percebe que tudo aquilo que era tão confortável e nos atraía tanto, já não faz tanto sentido assim. Talvez nunca tenha feito. As prioridades mudaram, os pensamentos (nossos e dos outros) e não sobra muito mais espaço pra ficar reinventando uma rotina que está fadada a se repetir.
Um dia, a gente muda, enlouquece e resolve ir embora.
A gente abre mão de uma coisa boa por uma melhor. Abrimos mão de passar um fim de semana com os amigos porque, de repente, estudar ficou mais importante do que era. Trabalhar tambem. Uma hora, as coisas das quais abrimos mão começam a determinar o que somos agora e o que viremos a ser. Se torna necessário determinar o que não queremos (ou não podemos) mais ter e fazer para poder ter um alvo bem definido de onde vamos chegar, do que queremos de fato. Dizem que se chama crescer.
E a gente vai indo embora. Mas pra onde?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Auto do sentimento

Tem gente que aprende a ser poeta, mas existem aqueles que ja nasceram poesia. Pura, daquelas que fermentam muito na mente antes de serem passadas pro papel, encorpada. Verso destilado. Rima ardente. Métrica inflamável....
Tem poemas que aquecem a gente e tem os que incendeiam.
Mas só quem se permite, se entrega, incendeia. Ler poesia não é difícil. Difícil é sentir.

domingo, 4 de maio de 2014

Tempo perdido

Hoje me deparei com um cartaz no metrô onde lia-se: ‪#‎AlegriaJá‬. Comecei a refletir sobre aquilo. Sobre o sentido daquela frase colorida, azul, ali no meio do cinza do concreto. Gritante. Olhei em volta pra ver se fazia sentido. Não fez.
Ao redor, pessoas sérias, alheias a qualquer tipo de felicidade aparente. Jovens silenciosos, conversando baixo. Adultos sérios, aos celulares, resolvendo assuntos aparentemente urgentes, que claramente não poderiam esperar até o fim do domingo. Todos visivelmente descontentes com aquela situação.
Sempre dizemos: "Segunda feira eu começo" quando diz respeito a uma dieta, um pedido de desculpas, uma mudança que influencia verdadeiramente nossa vida pessoal, nossa alto estima. Sempre parece que dá pra adiar mais um dia, surgem imprevistos mais importantes, a vontade quase nunca é das maiores. Mas tudo que fazemos por obrigação, pra surpreender quem muitas vezes nem merece ser surpreendido... temos que fazer pra ontem.
Ouvi uma mulher dizer "Na proxima vida eu quero ter mais tempo". A frase me pareceu absurda. Mas e o tempo dessa vida? O que estamos fazendo com ele? Espero que um dia, mesmo que seja só de vez em quando, possamos todos andar de metrô e nos sentirmos felizes quando o vagão chegar, sabendo que estamos indo a um lugar que nos da prazer e não que nos tira do sério e transforma nossa tarde de domingo em segunda feira de manhã.
Que o cartaz não seja só parte da paisagem. Que ele seja lido, assimilado e vivido: #AlegriaJá.

terça-feira, 29 de abril de 2014

O auto do preconceito

Não, nós não somos todos macacos.
Impressionante o peso de um ato racista contra um jogador de futebol, rico, jogando na Europa. Impressionante como todos reagimos. Ficamos indignados, e realmente, era o que deveríamos fazer, nenhum ato preconceituoso deve ser tolerado. Mas, o que fazemos com o nosso descontentamento? Subimos uma hashtag que em nada serve para diminuir ou modificar o preconceito, apenas resulta numa generalização do ocorrido.
"Ele é negro, é brasileiro, e ele é macaco? Então todos nós brasileiros somos macacos, porque somos todos misturados". Como se o resto do mundo não soubesse disso né? Eles vem pro Brasil no carnaval pra ver mulata sambando, e no meio disso também encontram loiras como madrinhas de bateria. Eles estão a par da situação.
Todo modo, eu não consigo assimilar a ideia da miscigenação racial como sendo um pretexto cabivel para sermos insultados e protestarmos concordando com a ideia. Isso não é protesto, isso é golpe de marketing, e dos piores. Acha que não? Sabia que o Luciano Ruck já lançou até camiseta com a hashtag estampada? Pois é. A unica utilidade disso é retroceder anos de luta verdadeira contra esse tipo de atitude. Desde quando manifesto social virou pretexto pra campanha publicitária?
O Brasil é o pais da mistura e do preconceito ao mesmo tempo. Pessoas negras são insultadas todos os dias nas ruas, nas favelas, nos shoppings. Cada comentário aleatório como "Ele é negro mas é muito bonito", "Porque você não alisa seu cabelo?" São pequenos atos de preconceito e eu nunca antes eu ví uma hashtag nacional contra esses detalhes, poucas vezes vi indignação nas ruas por esse motivo. Não é necessário ir pra Europa pra ver o racismo. Ele é nosso vizinho.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Ditongos e Hiatos

Qual o conceito que todos tem de Relacionamento SÉRIO? É o Status do facebook? É a aliança no dedo depois de uma semana de namoro? É o poder de dizer: "Fulano é meu"? Tento, na plenitude e humildade dos meus curtos 17 anos, entender o que se passa na cabeça das pessoas.
Existe uma necessidade de posse: a rotina, os pensamentos, a senha do facebook... A certeza de que a vida do outro não saia muito de um foco especifico. Você.
Mas será que isso não é um conceito extremamente deturpado? Mal aprendemos a lidar com nós mesmos, quase não nos conhecemos, e esperamos que um outro individuo nos entenda e nos complete. Queremos fazer parte do mundo de outra pessoa, e nem sabemos exatamente o que compõe o nosso próprio mundo.
Queremos amar e entregar a nós mesmos nas mãos de alguem totalmente aleatório, mas muitos de nós ainda nem consegue se amar, não sabemos nos aceitar e de repente, aceitamos cegamente a outro.
As pessoas querem ser ditongos e ainda nem aprenderam a ser hiatos sem sentirem uma dor aguda no peito: o vazio. Vazio de sí mesmas.
A realidade é a seguinte: muitos relacionamentos que não consideramos sérios, são mais valiosos e significantes que os que carregam nobremente esse rótulo. Duas pessoas que apenas "ficam" podem ter mais amor uma pela outra que duas que namoram. Elas podem querer se ver com mais frequencia, podem desejar um ao outro com mais ardor, ter mais respeito e levar uma rotina muito mais leve que muitos casais "de verdade". Isso porque estão juntas pelo simples fato de quererem estar, não porque tem um título a zelar.
Isso é relacionamento sério. Estar junto por vontade. Ter um laço que junta e não um nó que sufoca.