Amanha é 12 de outubro, dia das crianças.
Mas o que realmente isso quer dizer? No começo de setembro começam as propagandas na televisão. De um lado, brinquedos, roupas, presentes caros, sonhados com ardor pelas crianças. Do outro, a realidade: a maioria das crianças do país não terão acesso a nada disso nesse dia. Chocante?
Também nessa época começam as mobilizações pelo país: doações de brinquedos para as crianças menos favorecidas, criança esperança e afins. Não que não haja boas intenções por trás disso, mas mesmo assim, como a sociedade é hipócrita! A maioria passa o ano inteiro sem se dar conta da vida a sua volta. A pessoa que comprou um brinquedo qualquer para a doação, muitas vezes foi a mesma que fechou o vidro do carro ao ver uma criança pedindo esmolas no transito, ou que passou reto por uma na mesma situação nas ruas. O ano inteiro são vistos como marginais, mas hoje não. Doa-se um brinquedo (quando doa-se), sem sentimento, sem esforço, sentem-se como se estivesse curando o câncer a quantidade. Como são filantropos!...
Essas crianças vagam por ai sem nenhuma pretensão de futuro, o corpo e a alma desnutridas, e as pessoas simplesmente ignoram, pra lembrar uma vez por ano, de que elas ainda estão lá! São como girassóis que vem o sol uma vez ao ano, para no resto do tempo, permanecerem no escuro, se perguntando pra onde foi aquele feixe de luz.
O dia a dia de uma criança na periferia não é fácil. A maioria começa a trabalhar cedo pra ajudar em casa, deixam de frequentar a escola, não possuem uma estrutura real. O lazer é caro, de difícil acesso, e os poucos lugares que elas poderiam frequentar, praças por exemplo, são longe do lugar onde moram. Brinquedos? A vida é muito difícil e isso não é prioridade. Além disso, 85% das crianças que sofrem maus tratos no país, são as crianças que vivem nessas áreas, os dados não mentem. Passam o ano inteiro sem ter a menor ideia do real significado da palavra infância e, em um único dia, vêem supervalorizadas coisas que elas apenas sonham em ter. E assim, essas crianças aos poucos se revoltam, se rebelam.
O mais repugnante é vermos as elites, que nada sabem sobre os motivos pelos quais essas crianças crescem e se tornam malfeitores (já que ninguém é o que é por acaso), realizarem campanhas nos seus meios de comunicação pela redução da maioridade penal como forma de resolver o problema da violência em nosso país. Dissimulam, assim, a verdadeira causa de todo o problema: termos uma reduzida minoria dona de tudo e a grande maioria que não é dona de nada a não ser sua força de trabalho, que vendem (quando conseguem) em troca de um salário miserável e dignidade nenhuma. Procuram tratar o efeito e não a causa dos problemas sociais no pais, porque é muito mais fácil jogar a sujeira debaixo do tapete e fingir que a situação está resolvida. No fundo, eles não se importam. Estão apenas tampando buracos na sociedade. Ao invés de investir e reivindicar leis que mudem a situação, pressionar o governo a investir na urbanização dessas áreas e incluir socialmente essas pessoas, é mais fácil colocá-las onde elas não vão incomodar, as vezes, este lugar é na cadeia. É notável como, apenas em são paulo, o numero de presidios construidos foir exorbitantemente maior que o numero de novas escolas e a coorelação das coisas me parece muito simples. Como já diria Seu Jorge na música Brasis: "Tem um Brasil que é próspero, outro não muda. Um Brasil que investe, outro que suga...".
O Brasil é um pais desigual, isso não é novidade pra ninguém. O que parece não ter ficado claro é que a obrigação com as crianças do país, enquanto cidadãs, é do governo. Por mais que pessoas realmente bem intencionadas ajudem, ainda não é o suficiente. Mas, por aqui não faz política, se faz politicagem. Contorna-se os problemas, aliena-se as massas, é dado o ópio do esporte, da sensualidade, mas investir em educação, cuidar dessas crianças diariamente, como elas precisam, isso não é feito....
É extremamente contrastante essa realidade com o significado da data - que a maioria nem ao menos sabe: o dia das crianças foi estabelecido em 1959, quando o UNICEF oficializou a Declaração dos Direitos da Criança. Nesse documento, se estabeleceu uma série de direitos aos quais todas as crianças do mundo deveriam ter acesso como alimentação, moradia, saúde e educação. Será que sabendo disso, é possível ver esse dia com os mesmos olhos? Uma vez que os objetivos e ideais da data não são cumpridos, sendo, pelo contrário, ignorados pelo governo, qual o significado, que conotação ela adquire? Feriado midiático/capitalista pra vender brinquedos. E é só. Tira-se novamente o foco do que realmente interessa. É ótimo ganhar presentes, mas de que vale um presente quando não se tem o básico? Até o próprio ideal parece ridículo.
Enquanto tudo isso acontece, você vai pegar seus filhos, sobrinhos, irmãos... levá-los ao shopping pra escolher o presente deles e não vai ao menos fazer questão de dizer o quanto eles tem sorte por você ter condições de dar isso a ele. Aqueles que não poderão dar exatamente o que a criança quer, vão optar por algo mais acessível, e se sentirão culpados por isso, se desculparão ao invés de dizerem: "você tem muita sorte, muitos não vão ganhar nada, a maioria, nem se lembrará que dia é hoje." É dever moral de um educador mostrar a realidade do mundo aos filhos. É erro nosso dizer que eles não entendem. Eles precisam saber o quanto são privilegiados. Do contrário, irão crescer, vendo tv e acreditando piamente que tudo é daquele jeito que você pintou: perfeito e irreal. Se não fizermos nossa parte, ai sim, eles irão crescer e se tornar adultos que não entendem nada.
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sexta-feira, 11 de outubro de 2013
quinta-feira, 20 de junho de 2013
"Vem pra rua". Pra quê?
A semana começou irreal. De todos os lados, explodia a revolta, a insatisfação o desejo de justiça e de mudança de um povo já há muito inerte. Comecei a semana com uma sensação maravilhosa de que de fato o povo estava acordando, que o aumento da tarifa dos onibus por todo o país havia sido apenas um estopim, o golpe de misericórdia, a última gota que fizera um copo cheio de descontentamentos transbordar e que, depois de conquistada a vitória da volta da tarifa ao preço normal, coisa da qual eu nunca duvidei, haveria uma pauta com coisas realmente importantes para serem modificadas e que continuariam todos lutando juntos por isso.
Mas, percebo uma alienação sem tamanho nesse momento, em todos os âmbitos. Politico, ideológico. Pessoal.
Hoje, vendo os "protestos" do dia, eu me pergunto onde foi parar o foco, o objetivo que todos tinham quando saíram pela primeira vez as ruas e gritaram em notório uníssono pela queda do preço das tarifas, e que tudo não era apenas pelos 20 centavos de aumento. Apesar da grande diversidade de modos de dizer, no fim se dizia o mesmo.
O que vejo agora é um povo disperso. Hoje, não houve unidade. Cada grupo gritava por algo diferente. Os que até o inicio da semana eram "irmãos de revolução" se tornaram hoje pessoas de ideais totalmente opostos. Uma confusão de cartazes com desejos totalmente diferentes. O que houve com uma das frases que eu mais ouvi no início da semana: "Estamos resolvendo um problema por vez"? Fico me perguntando o que todos acham que vão conseguir com essa confusão. Quando se faz um protesto cujo objetivo é claro, o governo pode aceitar ou não, sabendo onde deve agir para abrandar o povo. Nesse momento, um quer a saída de Renan Calheiros, outros, querem fora da comissão de direitos humanos o polemico Marco Feliciano, outros lutam contra a bolsa estupro. Todas causas nobres. Tudo coisas importantes de se conseguir. Mas onde o governo deve agir primeiro? Com cada um gritando uma coisa ao mesmo tempo, até nós mesmos estamos começando a ficar confusos.
Além de gritar
por objetivos diferentes, cada um gritou com alguém diferente. Partidários, apartidários
e fascistas, um gritando mais alto que o outro sem deixar que a Democracia,
conceito defendido com unhas e dentes no inicio do protesto e usado como
argumento contra a repressão da polícia, falasse mais alto e conduzisse o povo
a um objetivo real. Para muitos, ir aos protestos virou "role". Tá ai
todos os fogos e clima de festa relatado por inúmeras pessoas que estiveram presentes, que não me deixam mentir. O triste fato que eu
espero que não se consume, é que logo muitos não terão mais a menor ideia do
porque estão nas ruas.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Política x Politicagem
Com toda a certeza é muito mais fácil viver
alienado em um mundo ilusório e perfeito do que bater de frente com a
realidade que nem sempre é exatamente o que agente acha ou o que agente
espera que seja. Ver as coisas como elas são, enxergar o mundo por trás
do mundo, o governo, a politica, é algo realmente importante. Você ter
conciencia dos problemas do meio em que você vive é meio caminho andado pra resolve-los. A outra metade disso consiste em iniciativa, estudo,
suor, protesto. Mas ficar inerte e nem sequer se dar ao trabalho de
saber o que acontece no pais não te torna apenas uma pessoa acomodada e
conformista, te torna um idiota que merece ser governado por alguém
ainda pior que você. Platão disse uma vez: O maior castigo para aqueles
que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se
interessam.
E ai entra outro problema, o que é ser política? (isso mesmo, ser, não fazer). O fato é, fazer politica e ser politica, são
coisas totalmente diferentes. Na época dos antigos gregos a palavra
política significava viver a cidade (literalmente aquele que viva na
polis). O cidadão que pensava no que era melhor para o bem-estar de
todos. Isso é ser politica. É governar por um bem maior, pela
coletividade, o bem estar de todos como indivíduos e ao mesmo tempo, para a sociedade
como um todo.
Em contra partida, fazer política é o que vemos os "políticos" fazendo nos dias de hoje. Se preocupando apenas consigo mesmos, usando o poder apenas pelo que é conveniente. O governo se tornou quase que totalmente elitista. Quase não se vê participação do povo, que já se conformou com a realidade de que "todo político é corrupto". Não sei o que me revolta mais: a deturpação do conceito de política, ou a deturpação da própria política pelos que estão no poder, mas que se avaliarmos a palavra original, não podem ser chamados de políticos.
Em contra partida, fazer política é o que vemos os "políticos" fazendo nos dias de hoje. Se preocupando apenas consigo mesmos, usando o poder apenas pelo que é conveniente. O governo se tornou quase que totalmente elitista. Quase não se vê participação do povo, que já se conformou com a realidade de que "todo político é corrupto". Não sei o que me revolta mais: a deturpação do conceito de política, ou a deturpação da própria política pelos que estão no poder, mas que se avaliarmos a palavra original, não podem ser chamados de políticos.
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